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09/01/2026 16:20

Motociclistas concentram parcela cada vez maior das mortes no trânsito

Os acidentes envolvendo motocicletas se consolidaram, ao longo dos últimos dez anos, como um dos principais desafios da segurança viária no Brasil. Mesmo em períodos de redução do número total de mortes no trânsito, os dados mostram que a participação dos motociclistas nas estatísticas de feridos e óbitos segue elevada e, em muitos casos, em crescimento contínuo.

Levantamentos nacionais indicam que, em 2023, o país registrou 27.755 sinistros envolvendo motocicletas. Em 2024, esse número saltou para 31.571 ocorrências, evidenciando uma tendência de alta. No mesmo intervalo, o total de feridos passou de 1.772 para 2.024, enquanto o número de mortes subiu de 30.985 para 35.640, corroborando o impacto direto desses acidentes sobre o sistema de saúde e sobre as famílias das vítimas.

A análise histórica mostra que o problema não é recente. Em 2019, por exemplo, o Brasil contabilizou 31.945 mortes no trânsito, sendo 11.214 de motociclistas — o equivalente a 35,1% de todos os óbitos registrados naquele ano

Em 2001, essa proporção era muito menor: apenas 10% das mortes no trânsito envolviam motocicletas. E em menos de duas décadas, o crescimento percentual foi de 244,7%, revelando uma mudança profunda no perfil das vítimas.


Acidente de moto. Imagem: Átila Alberti/ Tribuna do Paraná

A mortalidade de motociclistas cresce mesmo quando o trânsito se torna menos letal

Um dos pontos mais preocupantes destacados nos estudos oficiais é que, entre 2012 e 2019, o número geral de mortes no trânsito caiu cerca de 28,7%. No entanto, no mesmo período, a redução das mortes de motociclistas foi de apenas 10,4%. Na prática, isso fez com que a participação das motos nas estatísticas de óbitos aumentasse, indicando que a segurança desse tipo de veículo não acompanhou os avanços obtidos em outras modalidades.

Em 2023, o cenário voltou a se agravar. Foram contabilizados aproximadamente 34,9 mil acidentes fatais no país, acima dos 33,9 mil registrados em 2022. Desse total, quase 13,5 mil envolveram motocicletas, o que representa 38,6% de todas as mortes no trânsito, consolidando os motociclistas como o grupo mais vulnerável nas vias brasileiras.

Internações e pressão crescente sobre o sistema de saúde

Além das mortes, os acidentes com motos geram um volume elevado de internações hospitalares. Nos sete primeiros meses de 2021, o número de internações de motociclistas atingiu 71.344 registros, um recorde histórico. O total foi 14,3% maior que o de 2020 e 8,3% superior ao de 2019, demonstrando a sobrecarga contínua sobre o Sistema Único de Saúde (SUS).

Em 2020, mesmo com restrições de circulação em razão da pandemia, foram registradas 30.804 internações de motociclistas, o que correspondeu a 59,4% de todas as internações por acidentes de trânsito naquele ano. Esses números mostram que, além do impacto humano, os sinistros com motos têm peso significativo nos custos hospitalares e na ocupação de leitos.

Estudos apontam ainda que os custos dos acidentes fatais com motociclistas chegam a cerca de R$ 19 bilhões por ano, um valor que supera em várias vezes a arrecadação de impostos sobre a venda de motocicletas no país 


Motociclista atendido pela SAMU. Foto: Jeiza Russo/ AC

Nordeste concentra maior proporção de mortes de motociclistas do país

A distribuição regional dos dados revela fortes desigualdades. Embora o Nordeste concentre cerca de 28,6% da frota nacional de motocicletas, a região responde por aproximadamente 38,9% das mortes de motociclistas no Brasil. E justamente esse desequilíbrio é que coloca os estados nordestinos no centro do debate sobre políticas públicas de prevenção. A Bahia já figura entre os estados com maior número de vítimas. Em 2019, o estado registrou 725 mortes de motociclistas, com taxa de 5,15 óbitos por 100 mil habitantes. Municípios baianos de médio e pequeno porte aparecem com índices elevados quando a mortalidade é analisada proporcionalmente à frota de motocicletas, indicando maior risco fora dos grandes centros urbanos.

Frota crescente, condução irregular e infrações recorrentes

Especialistas apontam que o crescimento acelerado da frota de motocicletas é um dos principais fatores associados ao aumento dos acidentes. Em grande parte do país, há mais motos registradas do que condutores habilitados. Em 18 das 27 unidades federativas brasileiras, a proporção ilustra um alto índice de condutores sem Carteira Nacional de Habilitação (CNH) adequada, ou seja, tipo A. E, entre 2019 e 2021, infrações como dirigir sem a CNH, conduzir motocicleta com categoria inadequada e permitir a condução por pessoas não habilitadas apresentaram um crescimento expressivo. Também aumentaram as autuações por falta de capacete, transporte de passageiro sem proteção e condução de crianças em motocicletas, práticas diretamente associadas à gravidade das lesões em acidentes


Menor de idade pilotando moto em via pública. Imagem: Reprodução/ Redes Sociais

Rodovias federais mantêm tendência de alta em 2025

Dados mais recentes demonstram a continuidade do problema. Entre janeiro e novembro de 2025, por exemplo, foram registrados 29.317 acidentes com motocicletas nas rodovias federais brasileiras, sendo as principais causas apontadas, a ausência de reação do condutor, reação tardia ou inadequada e falhas na observação ao acessar vias, o quê indioca que na maioria dos casos o erro é causado pelo piloto, e não por adversidades da pista/ clima ou até mesmo por falhas mecânicas ou elétricas.

Vale a pena destacar que em 2025, o número de motociclistas mortos em rodovias federais superou em 38% os óbitos de motoristas de automóveis, expondo a vulnerabilidade desse tipo de veículo e a necessidade de medidas específicas voltadas à segurança dos condutores.

Debate sobre mudanças na habilitação e fiscalização ganha força

Diante do avanço contínuo dos números ao longo da última década, cresce o debate sobre a adoção de medidas mais rigorosas para reduzir os acidentes com motocicletas. Entre as propostas discutidas estão mudanças nos critérios para obtenção e renovação da CNH, ampliação de avaliações técnicas e psicológicas, além do aumento na fiscalização do uso de equipamentos de proteção e respeito ao ordenamento de trânsito.

Os dados acumulados mostram que o problema não se resume a um único fator, mas resulta da combinação entre crescimento da frota, falhas na formação dos condutores, infrações recorrentes e infraestrutura viária insuficiente. O cenário aponta para a necessidade de ações integradas e contínuas, capazes de conter uma estatística que, há mais de uma década, segue ceifando vidas e pressionando o sistema de saúde brasileiro.

 

Da Redação Vale FM e CSFM







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