A tradicional festa de Canavieiras irá ocorrer no próximo domingo (11)
A devoção a São Sebastião ocupa posição central na formação cultural e simbólica presente em várias cidades, como Una, Ilhéus e posteriormente Canavieiras, e se mantém viva há mais de 150 anos. A fé no santo se consolidou a partir de relatos de graças alcançadas, transmitidos pela tradição oral que fortaleceram a devoção popular e deram origem a uma das manifestações religiosas e culturais mais antigas do município.
O principal símbolo dessa devoção é a puxada do mastro, conhecida como Pau de Bastião. O ritual começa com o corte do tronco no manguezal e segue com o transporte do mastro desde o Cais do Porto até a Praça da Capelinha, conduzido nos ombros de carregadores pelas ruas da cidade. Ao longo do percurso, o cortejo reúne moradores, visitantes e turistas, misturando elementos religiosos e populares. Muitos fiéis chegam até a tocar o tronco ou recolhem folhas do mastro, tradicionalmente ornamentado com vegetação do mangue, como crenças de fé e/ou promessas pessoais.
Imagem do tranporte do mastro de São Sebastião. Imagem: Studio Planet Vídeo
Desde o século XIX, a Praça da Capelinha se firmou como o espaço simbólico da celebração. A Capelinha, dedicada à Sagrada Família, tornou-se o principal ponto de referência da vida religiosa local e foi ali que a puxada do mastro se consolidou como rito anual, marcando o início oficial dos festejos de São Sebastião. Mesmo não sendo dedicada exclusivamente ao santo, a igreja passou a representar o centro da devoção popular em Canavieiras.
A tradição local atribui o fortalecimento inicial da devoção a um episódio envolvendo dificuldades enfrentadas por uma família na roça e a doença considerada incurável de uma filha. Após pedidos de intercessão a São Sebastião, a jovem teria se recuperado, e a promessa feita à comunidade teria ampliado de forma significativa a fé coletiva no santo, dando maior dimensão às celebrações.
Ao longo do tempo, a puxada do mastro também se tornou palco de um dos episódios mais marcantes da história cultural da cidade. Em 1956, o então vigário da paróquia, padre Agostinho Stauder, propôs transferir o local de fixação do mastro da Praça da Capelinha para o Bairro São Sebastião, então conhecido como Bairro Três X. O local escolhido era o largo onde mais tarde seria construído o grupo escolar Antônio Carlos Magalhães (ACM), área que começava a se consolidar no processo de expansão urbana do município. A proposta, aprovada pelo bispo da Diocese de Ilhéus, provocou forte reação popular e dividiu a cidade, levando a um clima de tensão que exigiu reforço policial e marcou aquela edição da festa como a única realizada fora da Praça da Capelinha. No ano seguinte, a celebração retornou ao local tradicional, onde permanece até hoje.
A devoção a São Sebastião também se estendeu à ilha da Atalaia, distrito de Canavieiras, onde a festa adquiriu características próprias. Inicialmente restrita, a celebração ganhou força ao longo do tempo e passou a conviver com tradições dedicadas a Santo Antônio. Na Atalaia, o costume inclui o corte de dois mastros no mangue, um destinado aos adultos e outro às crianças, que são ornamentados e erguidos na praça da igreja local, preservando práticas transmitidas entre gerações.
Além do aspecto religioso e histórico, a puxada do mastro de São Sebastião também incorpora crenças populares que faz parte do folclore associado às festividades do santo em diferentes regiões do Brasil. Entre as mais conhecidas está a tradição segundo a qual quem se senta no mastro de São Sebastião acaba se casando, crença presente especialmente no sul da Bahia e também registrada em localidades de Santa Catarina (SC).
Essa tradição tem raízes em antigos rituais de fertilidade, anteriores ao catolicismo, que ao longo do tempo se misturaram à devoção religiosa. As festas do mastro carregam elementos simbólicos ligados à prosperidade, à continuidade da vida e à formação de vínculos afetivos. Dentro desse contexto, tocar, sentar ou retirar folhas e flores do mastro passou a ser associado à sorte no amor, ao casamento e, em algumas narrativas, à concepção de filhos.
A Puxada do Mastro de São Sebastião integra o calendário cultural e turístico de Canavieiras. Realizada na noite que antecede o feriado dedicado ao santo, a celebração mobiliza a cidade com cortejo, música e encontros sociais na Praça da Capelinha após a fixação do mastro. E, mais do quê um evento religioso, a tradição representa a continuidade de costumes que atravessam gerações e expressam a identidade cultural de Canavieiras, unindo fé, memória coletiva e manifestações populares.
Da Redação CSFM








