A tema ainda é um dos maiores tabús entre os homens
O Novembro Azul marca uma campanha anual dedicada à conscientização sobre a saúde masculina e, em especial, sobre o câncer de próstata. O tema permanece envolto por um tabu de longa data: muitos homens evitam procurar avaliação por constrangimento, medo ou desinformação. E esse silêncio tem impacto direto sobre a detecção precoce, o tratamento precoce e sobre as estatísticas de mortalidade em nível mundial, nacional e estadual.
Em 2022 os mais recentes levantamentos globais estimaram cerca de 397 mil mortes por câncer de próstata no mundo. No Brasil, dados consolidados de recentes balanços apontam para aproximadamente 17 mil óbitos por câncer de próstata em 2023. Na Bahia, levantamentos estaduais já indicaram, em análise de séries anteriores, média próxima a 1.250 mortes por ano atribuídas ao câncer de próstata. Existem ainda estudos mais recentes que apontam uma alta estimativa de novos casos do câncer de próstata no Estado, que figura entre os de maior incidência no país.
Breve história do conhecimento médico sobre o câncer de próstata
O câncer de próstata passou por descrição e evolução gradual ao longo de mais de um século de literatura médica. A primeira descrição histopatológica reconhecida aparece em 1853, em relatório do cirurgião J. Adams no London Hospital, ao qual se atribui a identificação inicial de carcinoma prostático por exame microscópico. Procedimentos cirúrgicos iniciais documentados ocorreram nas décadas seguintes: Theodor Billroth realizou, em 1867, procedimentos perineais que figuram entre as primeiras tentativas cirúrgicas dirigidas a lesões prostáticas neoplásicas.
O desenvolvimento de técnicas radicais de prostatectomia foi marcado pelo trabalho de Hugh H. Young, com participação de William S. Halsted, no Johns Hopkins Hospital em 1904, quando foram realizadas operações com intenção curativa que estabeleceram bases para procedimentos posteriores. Ao longo do século XX, ocorreram avanços técnicos e conceituais: refinamentos da técnica cirúrgica, desenvolvimento de abordagens retropúbicas e perineais, evolução do controle anestésico e, já no fim do século, a introdução de técnicas minimamente invasivas e, posteriormente, da cirurgia assistida por robótica.

Exames de próstata. Imagem: campusvirtual.cancer.gov
Evolução dos métodos de diagnóstico
A detecção do câncer de próstata evoluiu de sinais clínicos e exame físico para protocolos que combinam biomarcadores, imagem avançada e técnicas de biópsia guiada.
- PSA (antígeno prostático específico): exame de sangue que mede níveis séricos de PSA. Introduzido como ferramenta populacional a partir da década de 1980, PSA transformou o cenário de detecção, permitindo identificar homens para investigação adicional. Diretrizes modernas recomendam uso seletivo do PSA, com estratificação por idade e fatores de risco; não há consenso universal sobre rastreamento populacional em massa, mas há orientação para oferta informada a homens em faixas etárias específicas (por exemplo, entre 45 e 75 anos em grupos de risco), com decisões compartilhadas entre médico e paciente.
- Exame de toque retal (DRE): historicamente usado em conjunto com PSA, o toque retal permite detectar nódulos prostáticos palpáveis. Estudos recentes e revisões de diretrizes indicam que a utilidade isolada do DRE diminuiu com a difusão da ressonância multiparamétrica, embora o exame mantenha papel na avaliação clínica e em contextos com acesso limitado a imagem.
- Ressonância multiparamétrica (mpMRI): tornou-se padrão em muitos centros para selecionar candidatos à biópsia e para guiar biópsias alvo. A mpMRI reduz biópsias desnecessárias e melhora detecção de câncer clinicamente significativo. Protocolos atuais recomendam mpMRI antes da biópsia em muitos casos.
- Biópsia dirigida / fusão imagem-ultrassom: métodos que combinam imagens de mpMRI com ultrassom transretal para direcionar amostras aumentam a sensibilidade para lesões relevantes. Revisões recentes detalham ganho diagnóstico e redução de sobrediagnóstico.
- PET-PSMA e imagem molecular: para estadiamento em doença de alto risco ou recorrente, PET com traçadores dirigidos à molécula PSMA oferece sensibilidade superior a métodos tradicionais (cintilografia óssea, tomografia), permitindo localizar metástases em níveis de carga tumoral mais baixos. Diretrizes mais recentes incorporam PET-PSMA sobretudo em estágios de alto risco.

Cirurgia de próstata. Imagem: takanourologia.com.br
Métodos de tratamento: Princípios e modalidades
O tratamento depende do risco tumoral, da expectativa de vida do paciente, comorbidades e preferência informada. As opções principais são:
- Vigilância ativa (active surveillance): Indicada para câncer de baixo risco com intenção de evitar tratamentos que afetem qualidade de vida. Requer acompanhamento periódico com PSA, mpMRI e biópsias programadas. Objetivo: intervir somente se houver progressão.
- Prostatectomia radical (aberta, retropúbica, perineal, laparoscópica e robótica): Remoção cirúrgica da próstata com dissecção das vesículas seminais. Técnica nerve-sparing desenvolvida por Patrick C. Walsh nos anos 1980 reduziu taxas de impotência e incontinência em comparação com cirurgias prévias. A cirurgia continua como opção para doença localizada de risco intermediário/alto em pacientes com expectativa de vida compatível. Abordagens robóticas reduziram perda sanguínea e tempo de internação em muitos centros.
- Radioterapia: Irradiação externa (IMRT, SBRT) ou braquiterapia (implante de sementes radioativas) constituem alternativa curativa para doença localizada. A radioterapia combina-se a terapia hormonal em casos de risco intermediário/alto. Avanços tecnológicos aumentaram precisão e reduziram efeitos tóxicos.
- Terapia de privação androgênica (ADT): Bloqueio hormonal (supressão de testosterona por agonistas/antagonistas do GnRH ou antiandrogênios) é pilar no manejo de doença avançada e frequentemente associado a radioterapia em doença de risco alto.
- Quimioterapia e terapias sistêmicas modernas: Docetaxel e outros agentes permanecem indicados em doença metastática. Fármacos de nova geração (abiraterona, enzalutamida, apalutamida) ampliaram opções para doença resistente e metastática, com ganhos em sobrevida em contextos específicos. Terapias alvo e imunoterapias têm papel em subgrupos selecionados.
- Terapias radionuclídeas e dirigidas: Radiação sistêmica dirigida a alvos, como rádio-223 para metástases ósseas sintomáticas, e terapias PSMA-ligadas em desenvolvimento/uso em centros especializados, apresentam alternativas em doença avançada e resistente. Evidências crescentes sustentam uso em algoritmos contemporâneos.
Diagnóstico molecular e prognóstico
Ferramentas moleculares e painéis genéticos complementam a histologia (Gleason/ISUP) para estratificar risco e orientar decisões terapêuticas, em particular quando se pondera entre vigilância ativa e tratamento radical. Estudos longitudinais e guidelines internacionais orientam uso criterioso desses testes em centros que disponham da tecnologia e interpretação especializada.
Impacto da detecção precoce e papel das políticas públicas
A detecção precoce, quando associada a estratégias de seleção e manejo centrado no paciente, reduz risco de tratamentos desnecessários e aumenta perspectiva de cura em doença localizada. Políticas de saúde pública, programas de atenção primária e campanhas como o Novembro Azul atuam na educação, oferta informada de exames e redução de barreiras ao acesso. A incorporação de mpMRI e PET-PSMA em sistemas públicos requer planejamento orçamentário e capacitação técnica. Dados nacionais e estaduais orientam priorização de recursos.
Recomendações importantes
- Homens com 40–55 anos e fatores de risco (histórico familiar de primeiro grau, ascendência africana) devem discutir rastreamento com médico.
- Decisão sobre PSA deve ser compartilhada; conhecer vantagens e limites do exame evita sobrediagnóstico.
- Em caso de PSA elevado ou achado ao exame clínico, mpMRI pré-biópsia e biópsia dirigida aumentam precisão diagnóstica.
- Se diagnosticado, informe-se sobre opção de vigilância ativa quando indicada; pesquise centros com equipe multidisciplinar (urologia, radioterapia, oncologia médica, patologia).
O câncer de próstata mantém-se entre os principais desafios oncológicos da população masculina. Estatísticas globais e nacionais demonstram carga relevante de mortalidade e incidência. A evolução histórica e tecnológica criou ferramentas diagnósticas e terapêuticas que permitem abordagem personalizada. Romper o tabu em torno do exame e do diagnóstico constitui passo reconhecido por especialistas para reduzir impacto da doença, ampliar detecção em estágios tratáveis e melhorar resultados clínicos.
Da Redação CSFM


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